quinta-feira , 23 de janeiro de 2020
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Psicologia USP e a divulgação de artigos de reflexão

 

Por Gustavo Martineli Massola e Bernardo Parodi Svartman

Editores da revista Psicologia USP

 

 

A revista Psicologia USP tem na publicação de artigos de reflexão em Psicologia e áreas afins sua principal característica e assim o expressa na descrição de sua linha editorial:

 

a revista publica artigos e ensaios, que têm na reflexão de seus autores e da literatura utilizada o seu elemento essencial; essa reflexão implica que não devem ser meramente descritivos, quer de conceitos ou dados empíricos. Deve haver interpretação que tenha como referências teorias filosóficas e científicas (Psicologia USP, 2015).

 

Considerando este campo do conhecimento no Brasil, é uma das poucas revistas que adota explicitamente este perfil editorial.

A divulgação científica tem sido apontada como um aspecto importante das atividades editoriais de periódicos em todos os campos do conhecimento (Silva, 2006, p. 54), incluindo a Psicologia. Muitas vezes, os periódicos divulgam os resultados de pesquisas empíricas e, neste sentido, visam informar o leitor sobre descobertas que podem apresentar interesse para um público mais amplo. Enfrentam, assim, a ignorância ou a ausência de informação. Mas qual o sentido da divulgação em um periódico que privilegia a reflexão teórica e a forma do ensaio em lugar da informação ou do dado oriundo de pesquisa empírica? A Psicologia apresenta suas particularidades, que devem ser consideradas tanto para explicar o perfil editorial quanto a decisão de publicar trabalhos teóricos. São importantes também para que se compreenda a política de divulgação adotada pela revista.

Gustavo Martineli Massola (Imagem: Arquivo Pessoal)
Gustavo Martineli Massola (Imagem: Arquivo Pessoal)

Ao contrário da Física, que já com Newton no século XVII apresentou um corpus de conhecimento com organização axiomatizada (Newton, 2012/1687), instituindo um paradigma, no sentido de Kuhn (2013), na Psicologia surgiram, desde o século XIX, inúmeras vanguardas intelectuais que disputaram e ainda disputam hegemonia na área. A Psicologia não apresenta paradigma (Caniato, 2005; Carone, 2003), apesar de algumas de suas vertentes  – a psicanálise, o comportamentalismo, a psicologia da forma, a epistemologia genética, entre outras – dominarem alternadamente o campo do conhecimento, muito de acordo com o espírito de cada época – abordagens que aproximam o funcionamento mental do processamento de informações (Myers, 2003) têm ganhado muitos adeptos neste nosso momento dominado pela cibernética. A Psicologia está, assim, fortemente impregnada de sentido histórico.

Cada uma dessas abordagens pode criar conhecimento variável sobre o mesmo fenômeno, pois partem de princípios distintos. Os resultados das pesquisas desenvolvidas no interior de uma abordagem raramente dialogam com os princípios adotados por outras e por isso, não podem ser por elas aceitos. Isso significa que o máximo rigor na comunicação científica de resultados de pesquisa em Psicologia exige referência aos princípios teórico-conceituais que os sustentam e sem os quais perdem seu sentido. Esta característica da área pode aparecer como um problema para alguns autores. Uma resposta pode ser a de que o acúmulo de dados levará à superação dessa condição e ao estabelecimento de uma única teoria paradigmática. Um século e meio de esforços ainda não nos dão esperanças de que isso ocorra em um futuro próximo. Mas desta resposta bastante frequente pode derivar a perda da importância da teoria frente ao dado, postura que o campo não permite sustentar. A divulgação do dado puro em Psicologia pode levar à falsa imagem de um consenso que, de fato, não existe. Qual a influência dos meios de comunicação de massa, como a TV, na exibição de comportamento violento? Qual a importância de uma figura estável como a mãe para o desenvolvimento afetivo da criança? Como se relacionam pensamento e linguagem? Tome virtualmente qualquer pergunta e suas respostas irão variar conforme a perspectiva teórica adotada.

Bernardo Parodi Svartman (Imagem: Arquivo Pessoal)
Bernardo Parodi Svartman (Imagem: Arquivo Pessoal)

A atividade de divulgação científica pressupõe um público leigo, mas este público pode ser constituído pelos próprios profissionais ou cientistas não-especialistas. Para este público, interessa às vezes não o dado, mas os problemas teóricos que ele suscita, e a revista Psicologia USP procura divulgar intensamente seus artigos por meio de mailing lists a ele direcionados. Além disso, em pesquisa recente, descobriu-se que a revista é a segunda mais citada em teses e dissertações do Instituto de Psicologia da USP (Massola & Svartman, 2014). Podemos entender que profissionais em formação que buscam uma compreensão profunda dos problemas do campo interessam-se tanto por dados e informações quanto por reflexões teóricas problematizadoras e constituem um público diretamente visado por nossas atividades de divulgação, como a distribuição de exemplares impressos de cortesia para alunos de graduação de Psicologia e áreas afins. Atores sociais específicos, constituídos por grupos organizados que visam enfrentar temas como gênero e questões étnico-raciais, são muitas vezes formados por não-especialistas que precisam confrontar-se criticamente com o discurso produzido nas ciências humanas e sociais – a Psicologia, por exemplo, foi uma das forças responsáveis por legitimar “cientificamente” a inferioridade intelectual de grupos subalternos como negros e latinos durante o florescimento do movimento eugenista. Alguns dos acessos e compartilhamentos de artigos de reflexão divulgados em nossa página do Facebook sobre temas como suicídio, características culturais e políticas das novas classes médias ou políticas de combate às drogas parecem ter sido efetuados por esses grupos. Há, enfim, um campo dinâmico de diálogo entre a sociedade tomada amplamente e a Psicologia como ciência em seu mais profundo sentido de crítica intelectual do conhecimento.

Reflexão é tomada aqui como a volta da razão sobre si mesma, examinando suas características, suas possibilidades e seus limites. Este exame exige que nos debrucemos sobre aquilo que a razão produziu em uma de suas mais elevadas formas, a ciência. A razão, com o Iluminismo, deveria libertar a humanidade de sua servidão face à natureza e face a si mesma. Os resultados desse esforço, quando consideramos, por exemplo, a importância da ciência para o desenvolvimento de formas de extermínio em massa de populações durante os séculos XX e XXI, não deixam de ser contraditórios. O combate à ignorância por meio da divulgação de informações mostra-se insuficiente para que a razão cumpra seu papel emancipador. Uma sombra muito mais ameaçadora encontra-se no fenômeno do preconceito, este, estudado diretamente pela Psicologia. O caráter irracional do preconceito, que não se desmancha pelo simples contato com a realidade, ergue-se como um dos mais duros obstáculos à emancipação da humanidade, obstáculo que não estamos seguros de que a razão possa superar. Cumpre-nos seguir fazendo a crítica tanto ao preconceito quanto à própria razão e alimentando os canais sociais, institucionalizados ou não, de combate ao preconceito. Em essência, este é o espírito dos esforços de divulgação científica realizados por Psicologia USP em suas várias formas e teremos tido algum sucesso se pudermos constatar o uso de nossos artigos por aqueles setores da sociedade que lutam contra a desigualdade, o medo, a opressão e a dominação.

 

 

Gustavo Martineli Massola é professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e editor da revista Psicologia USP.

 

Bernardo Parodi Svartman tem experiência docente na área de Psicologia com ênfase em Psicologia Social Comunitaria e Psicologia do Trabalho.

 

 

Referências

 

Caniato, Â. M. P. (2005). Resenha: a questão dos paradigmas na psicologia. Psicologia & Sociedade, 17(3), 89–91. http://doi.org/10.1590/S0102-71822005000300014

Carone, I. (2003). A Psicologia Tem Paradigmas? São Paulo: Casa do Psicólogo.

Kuhn, T. S. (2013). A Estrutura das Revoluções Científicas (12th ed.). São Paulo: Perspectiva.

Massola, G. M., & Svartman, B. P. (2014). Editorial. Psicologia USP, 25(3), 227–228. http://doi.org/10.1590/0103-656420142503

Myers, D. (2003). Pensamento, linguagem e inteligência. In Explorando a Psicologia (5th ed., pp. 264–303). 2003: LTC.

Newton, I. (2012). Principia. Princípios Matemáticos de Filosofia Natural – Livro I (1st ed.). São Paulo: EDUSP. (Trabalho original publicado em 1687).

Psicologia USP. (2015). Instruções aos autores. Retrieved October 29, 2015, from http://www.scielo.br/revistas/pusp/pinstruc.htm

Silva, H. C. da. (2006). O que é divulgação científica? Ciência & Ensino, 1(1), 53–59. Retrieved from https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=5&ved=0CDAQFjAEahUKEwi3zfD8zLnIAhXFgpAKHfSXCp8&url=http%3A%2F%2Fprc.ifsp.edu.br%2Fojs%2Findex.php%2Fcienciaeensino%2Farticle%2Fdownload%2F39%2F98&usg=AFQjCNHXr9yAqljhgi4FqckEfwH15nxpRA

 

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