sexta-feira , 25 de setembro de 2020
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Conhece algum “acadêmico aberto” (open scholar)?

Por Cássio Ricardo Fares Riedo
Publicado em http://migre.me/ueDDd

Por incrível que pareça, descobri um termo que não conhecia nos movimentos de abertura: Acadêmico aberto (open scholar)!

Semana passada tive o privilégio de acompanhar o XXIV CEC, isto é, o vigésimo quarto Curso de Editoração Científica promovido pela ABEC – Associação Brasileira de Editoração Científica. O curso foi realizado entre 22 e 24 de junho no Auditório de Ciências Médicas da Unicamp. A última palestra na parte da manhã do dia 23 foi “O paradigma aberto de licenciamento: o caso Creative Commons no contexto de periódicos científicos”. Foi apresentada pela professora associada da UFSCar, Ariadne Chloe Mary Furnival. Foi nessa palestra que ouvi pela primeira vez o termo “open scholar”.

A ciência no contexto dos movimentos de abertura

A profa. Furnival contextualizou o paradigma aberto e colaborativo na Ciência, ressaltando a importância dos dados abertos para assegurar a possibilidade de replicar experiências e pesquisas científicas. Para ela, o paradigma aberto enfatiza a liberdade de acesso, sem barreiras ou custos; o direito de terceiros a acessar trabalhos para uso próprio em nome de um bem maior; um compromisso implícito em tornar os dados “brutos” livremente disponíveis, apesar do custo e do esforço empregados para obtê-los; a renúncia de controle sobre os dados, na medida em que os resultados possam ser livremente disseminados (ROYAL SOCIETY, 2012; ANSOLABEHERE et al., 2016).

Ela apontou também que “a onipresença das tecnologias digitais dentro da academia trouxe mudanças na forma do trabalho científico”. Definiu Digital scholarship como o uso e geração de coleções digitais, ferramentas analíticas para gerar novos produtos intelectuais, para localizar e gerir arquivos pessoais. Considerando o aumento de serviços baseados em web colaborativa, o compartilhamento de dados já alcançou todos os aspectos da atividade científica. Por exemplo, em 2015, o site de publicação de artigos científico academia.edu tinha 25 milhões de usuários, o portal de pesquisa ResearchGate tinha 8 milhões de usuários; e o gerenciador de referências Mendeley tinha 5 milhões de usuários (DYLLA, 2016).

Acadêmico aberto – Open scholar

A apresentadora apontou que Burton (2009) define o acadêmico aberto – open scholar – como “alguém que faz seus projetos e processos intelectuais visíveis digitalmente e quem convida e encoraja a crítica contínua do seu trabalho como também o uso secundário de qualquer parte ou de todo dele – em qualquer etapa do seu desenvolvimento”.

Dados abertos – Open data

Em se tratando da academia, não é possível deixar de considerar a importância dos dados nas pesquisas. E eles também precisam ser abertos. Em relação ao uso do símbolo de dados abertos em artigos publicados, Furnival, baseando-se em Kidwell et al. (2016), aponta que, antes do uso desse símbolo, menos de 3% dos artigos declaravam disponibilizar dados abertos; depois da adoção, passou para 23%, subindo para 39% na primeira metade de 2015.

Entretanto, “a proporção da produção científica publicada em revistas proprietárias têm aumentado de forma constante ao longo dos últimos 40 anos, e mais ainda desde o advento da era digital.” (LARIVIÈRE et al., 2015). Convém recordar, como ressaltado pela apresentadora, que inicialmente a maioria dos periódicos científicos era publicada por Sociedades Científicas. Mas a paisagem mudou em meados dos 1990s, sendo que as editoras comerciais passaram a publicar por volta de 40% dos periódicos; as sociedades científicas e profissionais, cerca de 25%; e as editoras universitárias e educacionais, aproximadamente 15%. Por exemplo, a Elsevier, entre 1994 e 1998, tornou-se responsável por 20% de todos os artigos indexados no Institute for Scientific Information (ISI), responsável pelo Web of Science, adquirindo a Mendeley em 2013 e a Science Research Network em 2016.

Conclusão

O mais importante é lembrar que, como indicado por Furnival, o conhecimento não é mercadoria ou apenas um produto, mas recurso que, como a água, é necessário para a vida. E a sua divulgação deixou de ser um problema técnico. Portanto, os movimentos de abertura tornam-se cada vez mais uma forma de resistência à monetarização do conhecimento, em cenários onde é cada vez mais necessário o acadêmico de cabeça e princípios abertos.

REFERÊNCIAS

  • ANSOLABEHERE, Karin; BALL, Cheryl, DEVARE, Medha; GUIDOTTI, Tee; PRIEDHORSKY, Bill; VAN DER STELT,Wim; TAYLOR, Mike; VELDSMAN, Susan; WILLINSKY, John. “The moral dimensions of open” Open Scholarship Initiative Proceedings 1 (2016)
  • BURTON, Gideon. “The open scholar” Academic Evolution 11 (2009)
  • DYLLA, F. “Content sharing made simple: A collaborative approach” Scholarly Kitchen. May 9, 2016
  • KIDWELL, Mallory C.; LAZAREVIĆ, Ljiljana B.; BARANSKI, Erica; HARDWICKE, Tom E.; PIECHOWSKI, Sarah; FALKENBERG, Lina-Sophia; KENNETT, Curtis; SLOWIK, Agnieszka; SONNLEITNER, Carina; HESS-HOLDEN, Chelsey; ERRINGTON, Timothy M.; FIEDLER, Susann; NOSEK, Brian A. “Badges to acknowledge open practices: A simple, low-cost, effective method for increasing transparency” PLOS Biol 14, 5, p.1-15 (2016)
  • LARIVIÈRE, Vincent; HAUSTEIN, Stefanie; MONGEON. Philippe. “The oligopoly of academic publishers in the digital era” PLOS ONE 10, 6, p. 1-15 (2015)
  • THE ROYAL SOCIETY, “Science as an open enterprise” London: The Royal Society, 2012, 105p.

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