quinta-feira , 1 de outubro de 2020
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Do disquete à Ciência Aberta: 25 anos da revista do Cevap-Unesp

Em 1995, o Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da Unesp (CEVAP) criou sua revista científica, então chamada Journal of Venomous Animals and Toxins (JVAT). Na época, a publicação era distribuída semestralmente e alcançava o mundo todo por meio de disquetes de 3,5 polegadas enviados pelo correio. Ao longo dos últimos 25 anos, o periódico ampliou seu escopo ao incorporar também a área de Doenças Tropicais e se consolidou como uma das mais importantes publicações do mundo no seu campo de atuação. Hoje, olhando para o futuro, o Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases (JVATiTD) investe em novos desafios: alcançar a sustentabilidade e incorporar à dinâmica editorial da revista os conceitos da Ciência Aberta, mesmo diante dos desafios de se fazer (e comunicar) ciência no Brasil.

Na época da criação da JVAT, havia no mundo todo não mais que uma centena de revistas científicas digitais. Anos antes, em 1991, o físico Paul Ginsparg, da Los Alamos National Laboratory da Cornell University (EUA), criou a Los alamos e-print archives (http://arxiv.org/) com a intenção de distribuir automaticamente, por meio eletrônico, “papers” para atender às áreas de Física, Matemática, Ciências da Computação, Biologia Quantitativa e Estatística. Hoje considerado “pai” da publicação digital e dos pre-prints, Ginsparg vislumbra uma nova era, um novo paradigma e uma nova abordagem para dar velocidade e visibilidade às publicações científicas.

A iniciativa do físico norte-americano foi a inspiração que a JVAT fosse criada no formato digital e se tornasse a revista eletrônica pioneira no Brasil, antes mesmo da consolidação da Internet comercial no país. Os disquetes eram distribuídos para mais de 1.600 pesquisadores sócios da Sociedade Brasileira e da International Society on Toxinology residentes em diversas partes do mundo.

Da esquerda para a direita, uma parte da história do JVATiTD: a capa da primeira edição da revista científica, quando ainda não havia incorporado área de Doenças Tropicais; o disquete enviado pelo correio para os pesquisadores nos primeiros anos; e o CD-ROM adotado a partir em 1998 (Crédito: JVATiTD)
Da esquerda para a direita, uma parte da história do JVATiTD: a capa da primeira edição da revista científica, quando ainda não havia incorporado área de Doenças Tropicais; o disquete enviado pelo correio para os pesquisadores nos primeiros anos; e o CD-ROM adotado a partir em 1998 (Crédito: JVATiTD)

Poucos anos depois, a revista deu seu primeiro “salto tecnológico”, passando para o formato de CD-ROM e sendo selecionada, em 1998, para integrar a primeira coleção de uma biblioteca digital de periódicos brasileiros. A SciELO (Scientific Electronic Library Online) era por si só uma empreitada inovadora, fruto de um projeto de pesquisa financiado pela Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo) em parceria com a BIREME (Centro Latino-Americano de Informação em Ciências da Saúde) para desenvolver uma metodologia comum para a preparação, armazenamento, disseminação e avaliação da produção científica em formato eletrônico, que já despontava como uma tendência global em comunicação científica. Em 2004, a revista iniciou a periodicidade quadrimestral e finalmente distribuída somente na forma online, a partir do site www.jvat.org.br.

Ao longo dos anos, a JVAT foi ganhando dinâmica e credibilidade entre os seus pares, tanto localmente quanto em âmbito internacional. Em 2012, sua periodicidade já havia evoluído para distribuição trimestral e a publicação já integrava dois dos mais importantes indexadores do mundo: Science Citation Index Expanded (Clarivate Analytics) e o Scopus–Scimago (Elsevier®).

“Neste ano, nós decidimos buscar um parceiro internacional que mantivesse o acesso aberto e gratuito ao conteúdo do periódico e que também contribuísse na melhoria da qualidade editorial da revista, inclusive conquistando novos indexadores, visando melhorar seu impacto”, destaca o professor Benedito Barraviera, fundador e editor-chefe da JVATiTD, lembrando que o Fator de Impacto conquistado com muito esforço em 2007 não ultrapassava o valor de 0.5.

Era hora, portanto, de um novo salto, mas havia riscos e desafios a correr.

Navegando em mares internacionais
Dentre inúmeras possibilidades, a opção escolhida foi a de estabelecer uma parceria internacional com a editora BioMed Central, pertencente ao grupo Springer-Nature. Na visão de Barraviera, este foi um momento de intenso aprendizado e desenvolvimento para o periódico e seu corpo editorial, uma vez que as Boas Práticas de Publicação ajudaram na profissionalização da editoração da revista, na melhora da qualidade dos artigos recebidos e, portanto,
publicados, no incremento da produtividade e, principalmente, na obtenção da meta estabelecida no momento da assinatura do contrato: atingir e manter o fator de impacto acima de 2.0 em cinco anos (JCR). Tal meta foi atingida em 2018.

Recentemente, duas das principais bases de dados – Web of Science e Scopus – publicaram suas métricas de 2019 para avaliação do fator de impacto das revistas científicas. Em ambas, a JVATiTD consolidou sua posição acima de 2.0, conquistando seu espaço entre as mais importantes nas áreas de Toxinologia, Ciência Animal e Doenças Tropicais e Infecciosas.

O InCites Journal Citations Reports é mantido pela Clarivate Analytics e calcula os periódicos mais citados entre os mais de 12 mil indexados à base do Web of Science. O último levantamento aponta o JVATiTD com o fator de impacto de 2.262 nas áreas de Medicina Tropical e Toxinologia.
O InCites Journal Citations Reports é mantido pela Clarivate Analytics e calcula os periódicos mais citados entre os mais de 12 mil indexados à base do Web of Science. O último levantamento aponta o JVATiTD com o fator de impacto de 2.262 nas áreas de Medicina Tropical e Toxinologia.

 

Já o CiteScore calcula o fator de impacto entre os periódicos indexados à base Scopus. O número é resultado de uma equação onde o numerador é a quantidade de citações a artigos presentes na revista e o denominador é a quantidade de artigos publicados na mesma revista durante os últimos 4 anos. O levantamento é apresentado no Scimago Journal and Country Rank (SJR) que também contempla mais de 35.000 mil revistas. Em seu mais recente levantamento, a publicação do CEVAP registrou um CiteScore de 3.6 na área de Ciência Animal e Zoologia, um número que coloca a publicação entre as 25% com maior impacto do mundo. Para 2020, a equipe da revista estima que o CiteScore deverá ultrapassar 4.0.
Já o CiteScore calcula o fator de impacto entre os periódicos indexados à base Scopus. O número é resultado de uma equação onde o numerador é a quantidade de citações a artigos presentes na revista e o denominador é a quantidade de artigos publicados na mesma revista durante os últimos 4 anos. O levantamento é apresentado no Scimago Journal and Country Rank (SJR) que também contempla mais de 35.000 mil revistas.
Em seu mais recente levantamento, a publicação do CEVAP registrou um CiteScore de 3.6 na área de Ciência Animal e Zoologia, um número que coloca a publicação entre as 25% com maior impacto do mundo. Para 2020, a equipe da revista estima que o CiteScore deverá ultrapassar 4.0.

 

“Ter uma revista com este impacto na Universidade é fundamental. Acredito que isso colabore em trazer prestígio internacional à Unesp. As outras instituições brasileiras de ensino superior, tanto públicas quanto privadas, não têm uma revista com este prestígio e com estas métricas”, celebra o professor Barraviera.

A publicação é a primeira do Brasil e segunda no mundo na área de Toxinologia, e primeira do Brasil na área de Doenças Tropicais/Doenças Infecciosas e Parasitárias e Ciência Animal, segundo os dados publicados em 2020 pelos dois principais indexadores mundiais já discutidos anteriormente.

Crise e novos desafios
Nos anos seguintes, apesar do sucesso editorial, outros ventos sopraram contra a parceria da JVATiTD com o grupo Springer Nature. A crise econômica enfrentada pelo Brasil, o seu impacto no orçamento da Unesp e a volatilidade do câmbio tornaram o custo da revista insustentável e, em 2018, a parceria foi interrompida após seis anos de vigência.

“A parceria internacional mostrou-se significativa para o aumento do Fator de Impacto e na conquista das demais métricas, além de indexações estratégicas como o PubMed, PubMed Central, e Europe PubMed Central, pois foram adotadas políticas editoriais em consonância com os melhores periódicos do mundo. A colaboração trouxe visibilidade e prestígio internacional para a revista e, consequentemente, para a Unesp. Porém, naquele momento, pesou muito para a equipe editorial a necessidade de sustentabilidade financeira a médio prazo”, afirma Barraviera.

Ao voltar a publicar no Brasil, a plataforma escolhida foi novamente a SciELO. “Nestes dois anos da parceria com a SciELO, nós continuamos recebendo artigos de todo o mundo e nosso fator de impacto se manteve estável acima de 2.0, um sinal de que houve consolidação da credibilidade do
periódico junto aos pesquisadores”, celebra Barraviera.

Na equipe da revista, a iniciativa foi vista como uma demonstração de ousadia, risco e pioneirismo. Ousadia por ir na “contramão” do desenvolvimento natural de um periódico científico ao voltar a publicar no país, e risco pelo receio da medida abalar suas métricas e perda de indexações estratégicas. Já o pioneirismo está associado ao projeto proposto à JVATiTD pela SciELO: fazer parte de um projeto-piloto para estudo da implementação de políticas de Ciência Aberta.

Assim como no momento de sua criação, quando optou por publicar em inglês e apenas no formato digital, passando a ser uma das primeiras revistas brasileiras a adotarem o formato de fluxo contínuo, a JVATiTD mais uma vez se alinha à tendência mundial em publicações científicas.

Clique aqui e veja o vídeo que conta um pouco da trajetória do JVATiTD, revista científica do CEVAP-Unesp

A Ciência Aberta
Há décadas, publishers em todo o mundo em maior ou menor medida vêm aderindo ao acesso livre (open access) dos artigos publicados em seus periódicos, disponibilizando seu conteúdo online e optando por cobrar taxas dos autores pela publicação do artigo (Article Processing Charge – APC), ao invés de cobrar por assinaturas de suas revistas.

Nos últimos anos, entretanto, esse movimento tem aprofundado as ações rumo à Ciência Aberta, dando ainda mais transparência a todo o processo editorial e exigindo, por exemplo, o compartilhamento integral dos dados da pesquisa publicada e a publicação dos pareceres assinados pelos revisores.

“A Ciência Aberta busca maximizar a replicabilidade dos resultados das pesquisas e sua disseminação, o que pressupõe o compartilhamento em acesso aberto dos artigos, dos dados e métodos analíticos utilizados e produzidos”, explica Abel Packer, coordenador da SciELO.

Para tanto, a biblioteca vem promovendo entre seus periódicos a adoção de práticas de Ciência Aberta em quatro dimensões principais: 1) adoção de pre-prints como início do fluxo de comunicação das pesquisas, no intuito de acelerar a comunicação dos seus resultados; 2) citação e referenciamento dos dados e outros conteúdos subjacentes aos artigos de pesquisa para facilitar a avaliação pelos pares, a reprodução da pesquisa e reúso dos conteúdos por outros pesquisadores; 3) opções de abertura do processo de avaliação dos manuscritos por pares; 4) interoperabilidade.

Da esquerda para a direita, professor Benedito Barraviera, fundador e editor-chefe da JVATiTD; professor Rui Seabra,  editor-associado da JVATiTD e Abel Packer, coordenador da Biblioteca SciELO (Crédito: Divulgação)
Da esquerda para a direita, professor Benedito Barraviera, fundador e editor-chefe da JVATiTD; professor Rui Seabra,
editor-associado da JVATiTD e Abel Packer, coordenador da Biblioteca SciELO (Crédito: Divulgação)

O debate sobre a adoção integral das dimensões da Ciência Aberta começou a tomar corpo no Brasil ainda durante a parceria da JVATiTD com a BMC Springer-Nature. O professor Rui Seabra Ferreira Junior, editor-associado do periódico, foi convidado a participar de reuniões e debates sobre a Ciência Aberta no 4º Plano de Ação Nacional em Governo Aberto promovido pela Controladoria-Geral da União, na condição de presidente da Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC), entidade da sociedade civil sem fins lucrativos com foco no desenvolvimento e aprimoramento das publicações de periódicos técnico-científicos brasileiros.

Além dele, representantes da CAPES, CNPq, Embrapa, SciELO, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Ministério da Educação, agências estaduais de fomento à pesquisa, entre outros atores envolvidos com a comunicação científica do país, também participaram dessa iniciativa finalizada em Brasília no primeiro semestre de 2020. “A implementação de práticas de Governo Aberto representa um elemento essencial para a consolidação da democracia em um país que tenha como base uma administração profissional e consciente”, explica o professor Rui Seabra.

A Parceria para Governo Aberto (Open Government Partnership – OGP) foi criada em setembro de 2011 e conta, atualmente, com a adesão de mais de 70 países e de 15 governos subnacionais e o Brasil é um dos cofundadores desta iniciativa.

“A Ciência Aberta é hoje uma tendência mundial e vem sendo adotada por revistas bastante tradicionais e por todas nações democráticas do mundo. A comunidade científica, que sempre foi pautada pela ética e transparência, prefere este modelo, sendo um dos motivos para que as pesquisas tornem-se acessíveis a mais pessoas, garantindo assim o constante avanço tecnológico e científico do ser humano”, complementa Seabra.

Além da JVATiTD, a SciELO também convidou para este projeto-piloto as revistas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, todas as três das áreas de Medicina Tropical, Doenças Infecciosas e Parasitárias.

Para Abel Packer, a adoção das práticas de Ciência Aberta é um grande desafio em prol do aperfeiçoamento dos projetos de pesquisa e de sua comunicação. “A presença da JVATiTD no projeto é algo natural, uma vez que a revista tem sido um importante parceiro desde os primórdios do Programa SciELO”, aponta.

Aos 25 anos, ano do seu Jubileu de Prata, a JVATiTD passa por um momento desafiador para se manter sustentável frente a um mercado editorial bilionário, ao mesmo tempo em que a equipe editorial se adapta para adotar as práticas da Ciência Aberta e manter boas métricas sem sua parceria internacional. O futuro é desafiador: a pandemia global e a crise econômica sem precedentes na história devem limitar ainda mais os recursos financeiros para produção e divulgação da pesquisa brasileira. Para o professor Barraviera, superar esses tempos vai exigir da equipe se reinventar com o mesmo dinamismo, criatividade e inovação que inspirou a criação do periódico, em 1995.

O conteúdo da JVAT está disponível em: http://www.jvat.org.

Fonte: Marcos Jorge, do portal Unesp

Link original: https://www2.unesp.br/portal#!/noticia/36016/do-disquete-a-ciencia-aberta-25-anos-da-revista-do-cevap-unesp

Sobre Leandro Rocha

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