segunda-feira , 15 de agosto de 2022
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Divulgação científica eleva acesso aberto a novo patamar

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Germana Barata

doi.org/10.21452/pontodevista.n0110

Nunca estivemos tão expostos a resultados de pesquisas científicas quanto na pandemia que teima em se despedir. Muito do aprendizado sobre o uso de máscaras, contágio, tratamento, sequelas, protocolos de prevenção à Covid-19 se deve a resultados de pesquisa publicados em revistas científicas ou em preprints – manuscritos disponíveis online mesmo antes de passar pela avaliação por pares – e que chegaram ao conhecimento público por meio da mídia. Revistas e repositórios de preprints ampliaram e aceleraram o acesso aos seus conteúdos a um público que vai muito além dos especialistas. As mudanças vieram para ficar e pressionam revistas científicas a rever seu papel e garantir acesso aberto e amplo à ciência.

O acesso ao conteúdo científico cresceu a partir de março de 2020, assim como registrou o Portal de Periódicos da Capes, que somou mais de 43 milhões de acessos naquele ano (aumento de 5% em relação a 2019), e o SciELO que passou de 2,5 milhões de acessos apenas em outubro de 2020. O mesmo ocorreu nos acessos do medRxiv, que explodiram para 6 milhões em agosto de 2020, comparado a tímidos 30 mil acessos no ano anterior. Até o site Sci-Hub, considerado uma plataforma que pirateia o acesso a artigos de acesso restrito no mundo inteiro, teve crescimento nos acessos desde março de 2020. O acesso a artigos resulta no recebimento de o dobro de citações, segundo Juan Correa, da Fundação Universitária Konrad Lorenz, na Colômbia, e colegas em artigo recém publicado na Scientometrics que mediu o impacto de artigos baixados através da plataforma.

Neste cenário, fica claro que o acesso aberto se tornou estratégico para assegurar avanços científicos e técnicos jamais vistos e ajudou a impulsionar uma produção científica vultuosa que representou 4% do total de artigos publicados no mundo em 2020.

Neste turbilhão, nasceu a Agência BORI com o objetivo de pautar o jornalismo brasileiro com notícias inéditas de artigos científicos publicados em periódicos brasileiros ou de autores lotados em instituições nacionais. Esse importante serviço, com o qual a ABEC Brasil firmou parceria, tem ajudado a convencer editores científicos que é preciso ir além do papel de comunicar para pares. Papel nada novo para revistas científicas de prestígio mundial como Science, Nature, The Lancet e The New England Journal of Medicine que, desde sua fundação, têm relação próxima ao jornalismo. Não à toa são revistas com presença marcante na grande mídia e ajudam – mais do que atrair visibilidade e citações em novos artigos – a embasar políticas públicas e a influenciar a opinião e a tomada de decisão de gestores, políticos e do público em geral.

Potencializando o acesso acerto

O Brasil dispõe de ciência de qualidade e há anos se destaca pelas publicações em acesso aberto, ou seja, livre de custos para os leitores. Essa combinação é essencial para garantir acesso ao conhecimento científico para a sociedade. Mas o acesso fica comprometido se não contar com o trabalho de profissionais da comunicação que tornem as informações compreensíveis, atraentes e relevantes para o chamado “público-geral”. Nesse trabalho, mais valorizado e reconhecido durante a pandemia, o objetivo não é meramente “traduzir o conhecimento científico para o leigo” – como muitos insistem em simplificar – mas também produzir novas análises e reflexões e mostrar a complexidade das questões que envolvem ciência e sociedade. 

É preciso então investir em meios de nos comunicarmos para além dos muros da academia, via redes sociais, podcasts, blogs ou vídeos. “Mas isso não é novidade, já tem sido feito!”, enfatizam alguns. Certamente que não. Inúmeras revistas têm se empenhado em garantir presença no Facebook, Twitter, Instagram e se esforçam para alimentar um canal no Youtube. O que falta, no entanto, é reconhecer que a comunicação é prioritária, investir na profissionalização e composição da equipe e valorizar essa atividade como parte do impacto social que tanto buscamos. Quem sabe, em breve, as políticas de incentivo à divulgação da ciência farão parte da política editorial de revistas científicas – como fazem as revistas internacionais de prestígio – e autores e editores estarão mais abertos, motivados e até apoiados a contribuir para elevar o acesso aberto a um novo patamar.

Germana Barata é a 1a Secretária da ABEC Brasil (2022-2024), jornalista de ciência e pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É Bolsista Produtividade CNPq, membro do Comitê Gestor da Década da Ciência Oceânica no Brasil, faz parte do comitê interino e é co-fundadora da Associação Latino-Americana de Editores Científicos (ALAEC).

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Referência 

Correa, J.C., Laverde-Rojas, H., Tejada, J. et al. The Sci-Hub effect on papers’ citations. Scientometrics, 127:99–126, 2022. https://doi.org/10.1007/s11192-020-03806-w

Else, Holly. How a torrent of Covid science changed research publishing — in seven charts. Nature. 16 December 2020. https://www.nature.com/articles/d41586-020-03564-y 

Sobre Leandro Rocha

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