sábado , 24 de fevereiro de 2024
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Maternidade ignorada e “efeito-tesoura” atrasam avanço de mulheres na ciência

A bióloga Camila Ribeiro sabia que a chegada da pequena Maria Alice afetaria sua rotina de produção do doutorado em ciência animal na Universidade Estadual de Londrina, mas não achou que as dificuldades seriam tantas. Não pôde deixar de pensar no que ouviu de um professor do mestrado, antes mesmo da gestação. “Não vai engravidar, hein? Se você engravidar, não vai conseguir conciliar a pesquisa com a maternidade.” Comentários assim, lembra, eram apenas para mulheres. Os homens que tiveram filhos não tinham problema algum. Na época, o professor chegou a questionar o casamento de Ribeiro, alegando que ela não teria tempo para escrever a dissertação. “Esse foi um dos motivos que me fizeram mudar de área no doutorado. Eu não queria mais continuar naquele laboratório”, desabafa.

Agora a bebê tem 11 meses. Ribeiro passa o dia envolvida com a criança. Não tem babá nem quem a ajude. O marido é veterinário e trabalha durante o dia. À noite, quando a pequena dorme, é o momento que tem para se dedicar à tese. Isso se a menina não acordar querendo mamar. “Tem dias que é uma luta me dedicar à pesquisa, porque já estou cansada, às vezes sem dormir direito”, afirma. Além da dificuldade de conciliar a maternidade com a pesquisa, Ribeiro não recebe mais a bolsa de estudos da Capes. De acordo com a Lei 13.536, toda bolsista tem direito a até 120 dias de licença-maternidade que permite a prorrogação dos prazos de vigência das bolsas. Entretanto, não foi isso que aconteceu com a doutoranda, que recebeu a última parcela em fevereiro deste ano, quando Maria Alice tinha oito meses.

“Eu achei que a bolsa seria prorrogada até junho, que é meu prazo final, mas não foi o que aconteceu”, diz. Uma semana após o nascimento da bebê, ela enviou a certidão de nascimento no portal do estudante de pós-graduação e deu entrada na licença-maternidade. Pressupôs que a prorrogação da bolsa fosse automática, mas, ao término da licença, foi à secretaria do programa e consultou o aplicativo da Capes – e as duas instâncias confirmaram o encerramento da bolsa no início do ano. A UEL informou que houve uma falha de comunicação entre a aluna e a coordenação do programa de pós-graduação, que não enviou a documentação no prazo para que houvesse o pedido de prorrogação da bolsa da Capes.

Sem a bolsa de estudos, o marido de Ribeiro é quem paga as contas da família. Recorrer a um emprego não é uma opção para ela no momento, pois seu foco é terminar a tese. Na última semana, o casal passou por mais um contratempo: a placa do aparelho de ultrassom que o marido de Ribeiro utiliza para fazer exames em animais queimou, o que o impede de trabalhar.

Além de Ribeiro, há vários relatos em grupos de bolsistas no Facebook de mães mestrandas e doutorandas que não conseguem se manter na pesquisa em função da pressão da produtividade e de docentes descredenciadas de programas devido à queda de publicações. Em parte, isso acontece porque os critérios de avaliação flexibilizando questões relacionadas à maternidade não são claros por parte das instituições de fomento, e os documentos de avaliação de áreas de conhecimento disponibilizados pela Capes apresentam pouquíssimas menções a esse assunto. Das 49 fichas de avaliação da Capes, documento que apresenta o método de avaliação dos programas de pós-graduação, somente oito (ou 16%) fazem menção à maternidade e flexibilizam alguns dos critérios. São elas: ciências biológicas II, direito, administração pública e de empresas, ciências contábeis e turismo, economia, sociologia, antropologia/arqueologia e ensino interdisciplinar. A área de educação menciona licença de forma geral, mas não especifica a maternidade. As outras quarenta áreas (ou 82%) não adotam em seus documentos de avaliação nenhuma ação relacionada à maternidade. Esses dados foram coletados e analisados pela organização Parent in Science, que tem como objetivo discutir a parentalidade no ambiente acadêmico.

Em janeiro deste ano, a organização enviou uma carta para a Capes solicitando a inclusão de um campo de preenchimento exclusivo para licença-maternidade, paternidade e adotante na Plataforma Sucupira, que reúne informações de discentes e docentes de pós-graduação no Brasil. O Conselho Técnico Científico da Educação Superior do órgão se reuniu em março e aprovou as adequações técnicas na plataforma, que já se encontra disponível. Em 2021, o Parent in Science também foi essencial para que o CNPq criasse um espaço no currículo Lattes para registrar o período de licença-maternidade.

Entretanto, a maioria das coordenações de áreas da Capes não têm medidas institucionais para utilizar tais informações. Isso é importante para deixar explícito para quais situações a licença maternidade será passível de flexibilização nos métodos de avaliação, afirma a fundadora do Parent in Science e professora de biologia da UFRGS Fernanda Staniscuaski. “Não adianta ter a informação da licença se continuarem descredenciando professoras devido à queda de produtividade ou contabilizando no tempo médio de titulação de alunas o período da licença.”

Staniscuaski defende que mães docentes não sejam desligadas dos programas de pós-graduação. “Há casos em que coordenadores de programas informam que não irão considerar a produtividade de professoras na maternidade, mas fazem isso desligando-a do programa. O ideal seria que, a partir da informação de licença agora disponível na Plataforma Sucupira, as métricas da docente fossem desconsideradas no cálculo do PPG”, diz a coordenadora do Parent in Science.

A piauí procurou a assessoria da Capes, que informou que embora a ficha de avaliação do quadriênio 2021-2024 não possa ser alterada, a diretriz do conselho técnico às coordenações das áreas é que “as informações sobre licença parental informadas na Plataforma Sucupira, de discentes e docentes, devem ser consideradas, no que couber, na avaliação dos vários aspectos do desenvolvimento do programa ao longo do ciclo de avaliação”.

Confira a matéria completa em https://piaui.folha.uol.com.br/maternidade-ignorada-e-efeito-tesoura-atrasam-avanco-de-mulheres-na-ciencia/

 

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