domingo , 29 de janeiro de 2023
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Covid-19 e imunossupressão: medicamentos para evitar rejeição no transplante renal influenciam no desfecho da doença

Pacientes submetidos a procedimento de transplante renal, no contexto da infecção pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), geralmente apresentam alto índice de mortalidade, transmitem o vírus por mais tempo e possuem uma resposta imune menor e menos duradoura às vacinas (REQUIÃO-MOURA et al., 2021). A imunossupressão é essencial para prevenir a rejeição ao órgão transplantado, porém os fármacos utilizados no tratamento interferem de forma direta na dinâmica de qualquer processo infeccioso. Essa interferência varia de acordo com uma série de fatores relacionados ao modo de ação do medicamento, a fase da infecção e o nível de gravidade da doença, podendo até mesmo atenuar alguns quadros de comprometimento pulmonar, inibindo a produção de citocinas pró-inflamatórias (SANDAL et al., 2021). Visando reunir e discutir os achados disponíveis na literatura atual sobre os efeitos dos fármacos imunossupressores na modulação dos desfechos da infecção por Sars-CoV-2 em transplantados renais, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará e da Universidade de São Paulo, ligados a hospitais de referência em transplantes renais no Brasil, elaboraram uma revisão narrativa da literatura atual, analisando os resultados apresentados em diversos estudos. O artigo “Impacto da imunossupressão na gravidade da infecção por Sars-CoV-2 em transplantados renais” publicado no vol. 25, n. 4, do periódico Brazilian Journal of Transplantation engloba mais de 70 referências abrangendo os fármacos imunossupressores de uso mais comum entre pacientes transplantados de rim.

Entre as evidenciações agregadas, resta demonstrado que inibidores de calcineurina (ICN) como a ciclosporina e o tacrolimo podem trazer benefícios em relação à replicação viral e modulação da resposta inflamatória, mas em contrapartida possuem um potencial efeito negativo na resposta imune vacinal. Em relação aos corticoides, os resultados compreendidos pela literatura perquirida indicaram controvérsias. Já a globulina antitimócito de coelho, ou timoglobulina (ATG), foi considerada segura e não deve ser postergada. Os inibidores da mTOR (sirolimo e everolimo) possuem um já conhecido efeito antiviral. Estudos in vitro observaram efeitos potencialmente benéficos também para os pacientes acometidos por vírus da família Coronaviridae, além da especulação sobre um potencial efeito antifibrótico. Porém, esta classe de fármacos tem conhecida toxicidade pulmonar, o que inspira precaução. Resultados também apontam que a taxa de letalidade da Covid-19 em transplantados renais em tratamento com o ácido micofenólico foi maior do que os que usam azatioprina e inibidores da mTOR. No entanto, considera-se que as três substâncias estejam relacionadas à incidência de linfopenia. A resposta imune induzida por vacina e as interações medicamentosas demonstradas ou potenciais, entre os imunossupressores e os medicamentos de eficácia comprovada no combate à Covid 19 também foram apreciadas na revisão, com destaque para o antirretroviral Ritonavir, que pode interferir nos níveis de concentração dos ICN e imTOR, assim como altas doses de esteróides podem agir reduzindo a concentração do tacrolimo.

O estudo contempla ainda uma lista de orientações para o manejo da imunossupressão na vigência da pandemia de Sars-CoV-2 que sintetiza os achados da pesquisa. Como conclusão geral, depreende-se que os efeitos modulatórios da imunossupressão farmacológica na infecção por Covid é um tema que ainda demanda esclarecimentos, e qualquer alteração no regime de tratamento contra a rejeição do órgão transplantado deve ser feita com cautela, considerando todos os aspectos da evolução do quadro infeccioso e seu prognóstico.

Referências

Requião-Moura LR, Sandes-Freitas TV, Viana LA, Cristelli MP, Andrade LGM, Garcia VD, et
al. High mortality among kidney transplant recipients diagnosed with coronavirus disease
2019: Results from the Brazilian multicenter cohort study. PLoS One. 2021;16(7):e0254822.
https://doi.org/10.1371/journal.pone.0254822

Sandal S, Boyarsky BJ, Massie A, Chiang TP, Segev DL, Cantarovich M.
Immunosuppression practices during the COVID-19 pandemic: A multinational survey study
of transplant programs. Clin Transplant. 2021;35(8):e14376.
https://doi.org/10.1111%2Fctr.14376

Para ler o artigo, acesse:

Sandes-Freitas TV, Requião-Moura L,Tedesco-Silva H. Impacto da Imunossupressão na
Gravidade da Infecção por Sars-CoV-2 em Transplantados Renais. BJT. 2022.25(04):e0122
https://doi.org/10.53855/bjt.v25.i4.474_PT

 

Crédito do texto: Rosa Emilia Moraes

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